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NATURALMENTE |
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CONSTATAÇÃO
Devagar e a medo abre-se uma porta
No horizonte esbatido das desfeitas acumuladas
A quimera da vida
Tornou-se um desfiar de fracassos
As ambições esmoreceram-se num outono maculado
Pelo desfalecer dos projectos inacabados.
Ficámos a olhar um para o outro
Desconfiados e intrigados
Lançando-nos mútuas culpas
Como se de inimigos nos tratássemos
Esquecemos que jamais fomos um todo
Caminhávamos paralelamente lado a lado
Com o nosso egoísmo
Fomos tecendo o vício e o erro
E o peso dos anos tornou-nos amargos.
São inúteis discriminações desfasadas
A meta foi já cruzada
Que fique do adeus
Uma despedida sem rancor
Diante de nós alonga-se o porvir
Com novas esperanças de risonhas jornadas.
Jbrel
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NEBELINA
É esta a manhã
A manhã real, visível
A de todos os dias
Chuvosa ou radiante
Feita do que resta
De todas as outras.
É este o canto
Da minha aurora
Igual a todos os cantos
Identificado em todas as auroras
É este o lamento do estrangeiro
Todas as manhãs
Á mesma hora.
É este o estranho
Que nunca se quis inimigo
Humilhante condição de vencido
É este o tempo
E esta a história
É este o abraço prometido.
É esta a manhã :
A do sem querer
A obrigada
A comprometida
A das lembranças
A seduzida
Esta é a manhã que se quer esquecida
Voluntária manhã de exílio.
Jbrel
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NATURALMENTE
Naturalmente,
Despido de preconceitos e de medos
Cruzei a estrada que dividia a vida
De um lado, as trevas, o pranto, a dor
Do outro, um sol radioso e bem-aventurado
Iluminava o trilho da bonança.
Naturalmente,
Fui pelo caminho dos perigos
E nele penetrei peito aberto às punhaladas
A existência é feita de estocadas
Valha-me a perseverança para resistir ao negro fado.
Naturalmente,
Abri os braços aos maus presságios
E embrenhando-me em dúbias considerações
Fui desbravando os nós cegos da má sina
Sentindo na pele o ardor das queimaduras
Golpes certeiros como mordeduras de cigarros.
Naturalmente,
Dei de mim o meu corpo ao infortúnio
Crente da necessidade de sofrer para ser mais forte
E ressuscitado da sonolência putrefacta e mole
Encontrei-me a mim mesmo mais seguro e experiente.
Naturalmente
Naturalmente
Jbrel
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DESENHO POÉTICO
Ser escritor é ser escravo do desejo
É não ter tabus a esconder
É ser um pequeno mundo do mundo inteiro
É ter batalhas invencíveis a vencer.
Ser escritor é repetir constantemente
Palavras iguais de sentido diferente
É querer ampliar a vida indefinidamente
Sem lucro pessoal, real ou aparente.
Ser escritor é conquistar a glória de esquecimento
É ser um simples nome na boca de um livreiro
É ter o pensamento como único companheiro
É não ter pão nem fome de pagamento.
Ser escritor é ser mesquinhamente aceite
Não por livre vontade antes por proveito
É estar ligado á palavra por um laço estreito
É ter de seu um tudo-nada que se aproveite.
Jbrel
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COSTAS VIRADAS
Afasto-me e a porta bate atrás de mim
Deixando ficar bocados de vivências
Nesse lar que foi o ninho de muitas delícias
Agora distantes pedaços de recordações.
Deixo para trás uma torrente de ilusões
Castelos de areia que o vento forte espartilha
Rodopiando no ar como poeira agitada
Tornamdo-se em nada
Um nada silencioso e atrozmente profundo.
Deixo para trás as promessas desgastadas
Pelo incumprimento contraditório das palavras
Ficaram actos consumados sem nexo e vagos
Nacos de desejo estéreis e futilmente descurados.
Ficou para trás um passado feito presente
E abre-se à minha frente
O precipício medonho e imponente
Da solidão agora visível e omnipresente
Castigo consequente desta fuga incidente
Águas gélidas no nevoeiro da saudade.
Ficou para trás uma frase conciliadora
Escamoteada no preciso instante em que fazia falta
E o esquecimento de uma carícia redentora
Que fosse o impulso a relançar a flama
Ficou para trás o que no presente
É a nulidade do meu queixume avulso e demente.
Jbrel
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ESPERANÇA
Haverá inesperadamente
Um suave e risonho amanhecer
Na sequência lógica dos teus dias
E num rasgo de euforia
Cantarás, e essa tua melodia
Espalhar-se-há de peito em peito
Tornando-se um canto perfeito
Que desabrochará em línguas de alegria
Acompanhando essa doce sinfonia.
Haverá seguramente
Um sorriso nos teus lábios
Quando te sentires liberta
Do cinzento e malfadado pesadelo
Em que se te agitam a face e os cabelos
E nesse momento de fuga
Em que a esperança eclodirá redentora
Saberás então não ter sido vão
O tempo em que mergulhada em solidão
Foste tecendo o teu grito de libertação.
Haverá um destino à tua frente
E feliz como o despontar da primavera
Tornarte-às uma flor esbelta e bela
Para acolher o futuro que te espera.
Jbrel
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HOJE
Hoje não há ontem
Nem fome de amanhã
Só esta presença física
Na metafísica da mente.
Hoje não há céu cinzento
Nem nuvens carregadas de chuva
Só um sol brilhante e límpido
Assobiando na brisa do tempo.
Hoje não há pesar
Nem lágrimas, nem prantos,
Há sim a delicadeza e o encanto
Dos corpos que ágeis rodopiam
Ao soprar do vento pelos campos.
Hoje não há dor
Nem feridas, nem sangue,
Antes o sarar de maleitas acumuladas
Ao longo de conturbadas jornadas
Que se esvaem na tarde estiolada.
Hoje só há hoje como porvir
E o imperturbável bater dos segundos
No presente sem passado nem futuro
Que repousa imutável a nosso lado.
Jbrel
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OFERTA
Quando a minha imagem se agigantar
Em painéis de publicidade duvidosa
E o meu nome se comentar
Em salões e noticiários enganosos
Saberei então ter sido vã
A mensagem que pretendia sã
E que deturpada se perdeu
Na bruma espessa das manhãs.
Quando de muitos porquês
Ignorar o porquê imperativo e importante
Cuja resposta inflama
As mentes dubiamente ignorantes
E que por vagas promessas
Se perdem em questões insignificantes
Saberei que foi em vão
Ter exposto o meu coração
Ao verbo interventivo como forma de expressão.
Quando esse quando for passado
E ficar como resultado
A sensação angustiante de inutilidade
Ir-me-ei sentar
Ao balcão do bar da fatalidade
Bebendo os vinhos da inevitabilidade
E desperto da embriaguês da ilusória utopia
Mergulharei nos vapores do vinho que alivia
A dor de não ter sabido dar de mim
Mais do que uma ténue fantasia.
Jbrel
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CEIA
Serve-me o pão
E enche-me a taça de vinho
Como se fosse a derradeira ceia
Esta que saboreio contigo
Quero assim guardar
Para poder recordar
Estes momentos belos
Que me estás a proporcionar
E se por acaso
O entendimento nos faltar
Ficarei com esta imagem
Para me acompanhar
Como forma de exaltação
Dos instantes maravilhosos
Que me tens vindo a ofertar.
Jbrel
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ESTADO LATENTE
De momento falta-me o dom do verbo
Deixei de lado o raciocínio incompleto
Olho em frente
E o azul vago do horizonte
Envolve-me a alma perdida e distante.
Bebi o café e rabisco no guardanapo
Estas palavras sem nexo
Demonstrativas da minha falta de rumo
Elas são o reflexo
Tal qual os cigarros que fumo apressado
Dos dias que queimo desajeitado.
Falta-me o sentido que procuro
No fundo da minha mente atrofiada
E lamento não ter hora marcada
No encontro da vida com o futuro.
Sou pois a negação da vontade
Neste corpo mole que se agita revoltado
Desconhecendo o gozo de ser o bem, de ser pecado
De ser a força da razão na essência da liberdade.
De momento falta-me saber
Se sou real ou um presságio mal sonhado
Em que fontes devo ir beber
Para me tornar um projecto concretizado.
De momento estou
No latente estado de ignorado.
Jbrel
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DEDUÇÃO
A espuma das ondas beija-me a lembrança
De outros areais, de outros mares, de outros locais
E dos teus lábios que me sorriem naturais
Na feliz alegoria da esperança.
O meu modo de te sentir risonha
No que sei agora ser uma forma estranha
De te expores, sem no fundo te revelares,
Aparentemente despida de pudores e de vergonha.
Jbrel
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NASCIMENTO
Veio do mar
Trazendo um intenso odor
A iodo e a sal
Brumeando-se nas ondas
Salpicadas de estrelas
Multiplicadas pelos raios solares.
Assim de mansinho
Como breves beijinhos
Trocados numa noite de luar
Arribou sem alarde
Aportando no ventre
Da moça mulher
A semente rebento
De um ser a nascer
Concebido do ardor
Mais arrebatante do amor
No feliz acto
De dar e receber
Os frutos da ternura
Feitos arte e ventura.
Assim veio da obscura noite
Que se abriu esplendorosa
Na obra criativa
Da gestação em flor.
Proveio de um instante
E com o tempo cresceu
Sendo hoje o homem
Que talvez seja eu.
Jbrel
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ENCONTRO
Chegou, destacando-se da multidão incógnita
Personalizando nos lábios um sorriso sereno
Cintilando-lhe no olhar uma leve pureza
Consciente da sua silhueta elegante.
Abriu os peitos numa calorosa saudação
E ofereceu a face ao cumprimento íntimo
Como se a tarde se cingisse nela
E no seu corpo ardesse uma chama divina.
Deu ao instante a dimensão da eternidade
Fundindo-se nela paixão e cumplicidade
Semelhante a uma diva em busca da imortalidade
Caiu naqueles braços despreocupada e ousada.
O amante feliz rejubilou de vaidade
Sentindo-se honroso de tanta felecidade
E num terno beijo acariciou a beldade
Misturando-se ambos no burburinho da cidade.
Jbrel
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A MESA DO CAFÉ
De novo a mesa do café
O empregado atencioso
O fumo compacto
A chávena vazia
O cigarro aceso
A espera do teu sorriso
Uma caneta enganando a ânsia
Gravando palavras numa folha baça
Frases com o contorno do teu corpo
Desenhadas com a precisão do escopro
Que molda a estatueta esbelta
De linhas finamente recortadas
Com a exatidão da tua silhueta
Claramente projectada na minha memória
Assim eu escrevo enquanto espero
Ao fim da tarde
Na mesa habitual
Do café da nossa cumplicidade.
Jbrel
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