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DIVAGAÇÕES |
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SEMPRE QUE ESTOU SÓ
Sempre que estou só
E é frequentemente quase um estatuto
Cogito ingloriamente como seria
Se porventura houvesse uma companhia
A percorrer o mesmo rumo que me estimula
E lado a lado coniventes e motivados
Desbravássemos compenetrados e empenhados
Eventos comummente acarinhados.
Sempre que estou só
E medito ponderado
No mutismo da minha caminhada
Sem "bom dia amor", "dormiste bem?",
"Que bonita és...", "sentes-te bem-humorada?"
Nem uma só palavra me soa em resposta
Fazendo-me crer que não sou nada nem tenho nada
Apesar de possuir recordações como lembrança
Na minha vida desgastada, oca e inglória.
Jbrel
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SUSPEITA
Algo me diz
Que nem tudo é risonho
Que o despontar da aurora
Nem sempre prenuncia um dia soalheiro
Que aquele que se diz ser companheiro
No momento do aperto nos ignora
E em pedaços estilhaça-se o encanto
Restando a crueza da realidade
A corroer a memória perturbada.
Jbrel
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DESPREOCUPAÇÃO
A estranha sensação de estar presente
Aqui, independentemente do local,
Como se o físico e o espaço
Se fundissem numa globalidade conscienciosa
E dessa simbiose resultasse
Uma displicência coerente e ordenada
Tal vapores aveludados e inebriantes
De um vinho intemporal
Que um Baco meticulosamente concebeu e protegeu.
Neste sossego sereno
Em que o ontem perdeu o sentido das desfeitas
E o porvir se apresenta sem ânsias nem receios
A mente plana na imensidão do vago
Numa inexistência existencial
Num rumo sem destino
Numa meta concretamente casual
Tudo simples e natural
Como se a vida fosse
Este estado anormal
Mas que seria delicioso
Se assim é que fosse real.
Jbrel
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MAR SALGADO
O mar!
Desfalecendo azul nos areais imensos
Que se prolongam pela costa sinuosa
Do meu País com histórias maravilhosas
De naus e marinheiros e lendas
E tragédias humanas dolorosas.
O mar!
Que se alonga sossegado nos teus olhos
Ocultando temporais já passados
Que de receios sobressaltou as namoradas
Quando revolto se agitava desenfreado
Em tempestades medonhas e angustiantes
E que agora de tão manso e repousado
Mais parece um menino suspirando
No leito acetinado onde o sonho é farto.
O mar!
Este mar dos desejos de liberdade
Janela aberta a ideais de felicidade
Encerra nas suas águas frescas e profundas
Segredos sem tempo nem idade
Que se revelarão naturalmente
Com a pujança da nossa força de vontade.
O mar!
O mar do meu País
O mar da minha cidade
O mar da minha tenacidade!
Jbrel
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TROVOADA
Uma tarde de sol
A muitas outras igual
Escureceu num repente
E um relampejar anormal
Fez ribombar estridente
Um trovejar sobrenatural
Encostaste-te a mim
O receio estampado no olhar
A pedir protecção para o medo
Que de ti se estava a apossar
Esqueceste as palavras amargas
Com que me querias brindar
Nessa mudança espontânea
Pude observar
Uma fragilidade
Sem defeitos a censurar.
Livre de ressentimentos
Acolhi-te em meus braços
E fiz estes versos
Para te lembrar
Que a amizade e o amor
Podem coabitar
Ou por trilhos distintos
Cada qual caminhar.
Jbrel
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TRISTE MAIO
Nesta tarde imprecisa e vaga
Nu de pretenções e despojado de fascinações
Adivinho a vã e dolorosa chaga
Que em nós desponta
E que nos rasga e fere a alma
Porque minguados de esperança
Aguardamos os dias
Carregados de breu e desconfiança
Como nuvens horrorosamente negras
Arrastadas pelo agreste vendaval nordestino
Que nos fustiga
Nos castiga
Nos obriga
Sem termos sido achados
Mas aos quais fomos agrilhoados
Expiação sem remissão
Castigo cego, pena à revelia julgada,
Nesta tarde de Maio
Do Maio das flores
Do Maio das cerejas
Do Maio das revoluções
Neste País sem verdadeiro Maio
Neste meu País maltratado
Nesta Pátria sem Maios libertadores
Aqui nesta tarde
Na minha terra mirrada de condições
Passa na rádio
A notícia de prolongadas restrições.
Jbrel
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CAIS DA ESPERANÇA
Da colina que se ergue na cidade
Vislumbro em baixo, ao fundo, o rio
Que manso, flúi langoroso
Para o Atlântico que se abre mais adiante.
Na margem próxima ergue-se o porto
Onde pequeninos como formigas
Se atarefam estivadores e marinheiros
Na descarga de enormes cargueiros
Ou nos preparos do navio de saída
Que zarpará do cais rumo à barra
E se perderá minúsculo na linha do horizonte.
Levará a bordo tripulantes e passageiros
Irmanados na cumplicidade das águas salgadas
Alguns golfinhos acompanhálo-ão brincalhões
Pulando e mergulhando no rasto de espuma
Que as hélices do paquete largam atrás delas.
Levará executivos, médicos, engenheiros,
Jovens namorados, casais e velhos trapaceiros
E muitos incaracterísticos passageiros
Que a esperança tornou aventureiros.
Levará a certeza da partida
E uma possível data de ancoragem
A outro porto, a outras amarras
Onde rejubilará a surpresa da chegada.
Levará desejos em forma de viagem
E algumas desilusões para pagar a passagem.
Jbrel
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DESABAFO
Este calor tórrido que me morde
A fronte, os braços, a serenidade
E que me deixa sem pinga de vontade
Para vencer este mal-estar que me sacode.
Este desabafo sem sentido que me assola
E me afunda perdido e sem resposta
É um pouco de mim que se estiola
Em enormes pingos de suor
No abrasador sol do quente Agosto.
Este refúgio nas palavras sem verdade
Para perante mim mesmo justificar a nulidade
Tentando enganar a realidade
Com afirmações fictícias e falsidade.
Esta baixeza de pudor e castidade
Em que sujo de ilusória a honestidade
É um duro castigo para o meu corpo que arde
Em línguas de fogo no pino da tarde.
Jbrel
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PÁGINA
Quis edificar o meu projecto
Acreditando estarem correctas as minhas suposições
Esqueci ser preciso o bater de dois corações
Para materializar as minhas ambições.
Houve precipitação e sobrou a vontade
De ao meu ritmo correr
O que não tinha caminho para andar
Estagnou, como as águas de um charco,
O que pretendia que fosse um manso riacho.
Ficou primeiro uma amargura
A morder-me profundamente os lábios
E corroendo-me os pensamentos
Houve mágoa, tristeza e sofrimento
A pesar-me duramente por muito tempo.
Veio depois o esquecimento
Que o tempo foi limpando da memória
Resta hoje uma vaga imagem
Do que foi uma página da minha história.
Jbrel
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DECALCOMANIA
Decalco-te cuidadosamente na memória
Para que nitidamente te possa visualizar
Quando a vontade de te relembrar
Seja imperiosa e intensa
Como uma sede ávida de saciar.
Moldo-te voluvelmente no meu ânimo
E o contorno dos teus seios
Cola-se imagináriamente à minha pele
Materializo-te plasticamente no meu sono
Dando vida ao devaneio acalentado.
Faço um conceito distinto
Da nuvem de poeira onde esvoaças
Convencido que te criei matéria
Que te fiz espírito e te fiz carne
E satisfaço-me com a obra imaginada
À qual dei a vida de uma fada.
Jbrel
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